Vítima de 26 anos foi encontrada com vida nesta terça-feira (26).
(Imagem: Reprodução / Acervo / GBMar)
Por Danilo Costa
Uma experiência extrema de sobrevivência em alto-mar pode deixar marcas psicológicas profundas e duradouras.
A avaliação é de professores universitários, doutorandos e membros do grupo de estudos e pesquisa InterSaber, da Universidade São Judas Tadeu, ouvidos com exclusividade pela reportagem do Portal VL News nesta quarta-feira (27), após o caso da jovem Bruna Damaris Sant’anna da Silva, de 26 anos, encontrada viva depois de passar cerca de 42 horas à deriva no mar do litoral norte.
Enquanto Bruna segue internada sob cuidados médicos, as buscas por Dheorge Pereira Bernardino, de 28 anos, continuam.
Um colete salva-vidas possivelmente ligado ao desaparecimento dele foi encontrado pela Marinha do Brasil próximo à Ilha de Búzios, em Ilhabela, durante as operações realizadas nesta quarta-feira.
Desaparecimento no mar mobiliza buscas
O desaparecimento dos dois aconteceu no último domingo (24), na região da Praia Ponta das Canas, no sul de Ilhabela. Segundo informações apuradas pela reportagem, Bruna e Dheorge desapareceram durante um passeio no mar.
A jovem foi localizada com vida na manhã de terça-feira (26), após ser encontrada por pescadores caiçaras nas proximidades da Ilha do Tamanduá, em Caraguatatuba.
Em seguida, ela foi retirada da água pelas equipes do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) e encaminhada ao Hospital Mário Covas, em Ilhabela. De acordo com o governo municipal, Bruna estava consciente no momento do resgate e, na última atualização, encontrava-se estável.
Especialistas explicam impactos psicológicos de situações extremas
Especialistas explicam que situações extremas como essa provocam reações intensas no cérebro humano, que passa a operar em estado de sobrevivência.
O psicólogo, professor universitário e membro do grupo InterSaber, Dante Ogassavara, afirma que experiências traumáticas podem gerar impactos emocionais por toda a vida.
Segundo ele, diante de uma ameaça extrema, o organismo entra em estado de “luta ou fuga”, mecanismo automático voltado à preservação da vida.
Nesse cenário, a pessoa pode agir de maneira impulsiva e até tomar decisões desesperadas na tentativa de sobreviver.
“A vivência de experiências extremamente estressantes e traumáticas pode repercutir sobre o funcionamento do indivíduo para o restante da sua trajetória de vida ao se tornarem marcos do curso de vida”, explicou o especialista.
Dante também destacou que, em situações prolongadas de estresse severo, podem surgir quadros psiquiátricos temporários, como delirium, caracterizado por confusão mental, alterações de consciência e da atividade psicomotora.

Instinto de sobrevivência altera funcionamento do cérebro
A psicóloga e professora universitária Jeniffer Ferreira Costa explicou que o cérebro humano possui mecanismos automáticos de autopreservação ativados diante de riscos iminentes.
Segundo ela, a amígdala cerebral identifica rapidamente ameaças e direciona o organismo para respostas imediatas, reduzindo temporariamente funções mais analíticas e reflexivas.
“Nesse momento, o cérebro passa a priorizar a sobrevivência. Funções mais reflexivas, como análise racional, planejamento e percepção detalhada da situação, podem ficar temporariamente reduzidas”, afirmou a psicóloga.
Jeniffer também explicou que o hipotálamo ativa a liberação de hormônios como adrenalina e cortisol, responsáveis por acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a circulação sanguínea e elevar o estado de alerta do corpo.
Resistência mental pode ser decisiva para sobrevivência
Para a psicóloga Luana Campo Mariotti, a resistência mental pode ter papel decisivo em situações severas de sobrevivência. Ela relaciona essa capacidade ao conceito de resiliência.
Segundo a especialista, pessoas com maior flexibilidade emocional tendem a lidar melhor com situações adversas, reduzindo atitudes impulsivas que poderiam agravar ainda mais os riscos.
“A resistência mental pode contribuir para que a pessoa avalie as opções reais disponíveis durante a crise, reduzindo a tomada de atitudes impulsivas que poderiam aumentar sua vulnerabilidade”, destacou Luana.
Exaustão, medo e desidratação afetam funcionamento cognitivo
Já a psicóloga Thais da Silva Ferreira ressaltou que fatores como desidratação, exposição prolongada ao sol, fome e privação de sono comprometem o funcionamento cognitivo, mesmo com os mecanismos automáticos de sobrevivência ativados.
Ela explicou que o cérebro prioriza respostas rápidas diante do perigo, provocando alterações fisiológicas como aumento da frequência cardíaca e aceleração da respiração.
“Em situação de deriva no mar, o indivíduo pode tentar nadar sem direção, tomar atitudes impulsivas ou, ainda, afogar-se”, afirmou a psicóloga.
Trauma psicológico pode durar anos após resgate
Além das consequências imediatas, especialistas alertam que os impactos psicológicos podem permanecer por meses ou anos após o resgate.
Dante Ogassavara explica que vítimas submetidas a experiências extremas podem desenvolver sintomas compatíveis com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Entre os sintomas possíveis estão pesadelos, lembranças intrusivas, hipervigilância, irritabilidade, medo intenso relacionado ao trauma e dificuldade para dormir.
O especialista também destacou que o cérebro pode associar sons, imagens ou situações semelhantes ao episódio traumático, reativando respostas emocionais intensas mesmo após o fim do perigo.
“Situações extremas como essa exigem não apenas cuidado físico. Nesse processo, o cuidado psicológico torna-se essencial”, concluiu o psicólogo.
Enquanto Bruna segue sob acompanhamento médico, as equipes do GBMar e da Marinha do Brasil continuam as buscas por Dheorge Pereira Bernardino em pontos do litoral norte onde as correntes marítimas podem ter levado a vítima.
Até o fechamento desta reportagem, ele permanecia desaparecido.